
Sony e Warner processam Anthropic: Sony Music Publishing e Warner Chappell Music entraram na Justiça dos Estados Unidos contra a Anthropic, desenvolvedora do Claude, em mais uma disputa que coloca inteligência artificial e direitos autorais em rota de colisão. A ação foi protocolada em 28 de agosto de 2026 no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Norte da Califórnia e ganhou repercussão nesta segunda-feira, 31, após a divulgação de novos detalhes da acusação.
O processo reúne 35 entidades ligadas às duas gigantes do mercado editorial musical, entre elas Sony Music Publishing, Warner Chappell e diferentes empresas responsáveis pela administração de catálogos. A ação também cita individualmente Dario Amodei, cofundador e CEO da Anthropic, e Benjamin Mann, outro cofundador da companhia.
Os autores acusam a Anthropic de ter obtido e utilizado sem autorização milhares de composições protegidas por direitos autorais para desenvolver os modelos da família Claude. Entre as obras mencionadas estão “Eye of the Tiger”, “September”, “Paper Rings”, “Livin’ on a Prayer”, “Hallelujah”, “Ain’t No Mountain High Enough” e “All I Want for Christmas Is You”.
A Anthropic rejeitou as acusações. Em declaração divulgada nesta segunda-feira, a companhia afirmou que discorda das alegações e que pretende se defender de forma contundente no tribunal. A empresa também sustenta que o treinamento de sistemas de inteligência artificial com obras protegidas pode ser amparado pela doutrina norte-americana do fair use, ou uso justo.
Sony e Warner processam Anthropic. O processo acusa Anthropic de baixar obras de bibliotecas piratas
O ponto mais sensível da nova ação não está apenas na discussão sobre utilizar obras protegidas para treinar inteligência artificial. A acusação procura diferenciar o uso da obra da forma como o conteúdo teria sido obtido.
Segundo a queixa de 48 páginas, a Anthropic teria utilizado BitTorrent para baixar milhões de livros de repositórios considerados ilegais, entre eles Library Genesis, conhecida como LibGen, e Pirate Library Mirror, também chamada de PiLiMi. A documentação sustenta que parte desses livros continha letras de músicas e partituras pertencentes às editoras que agora processam a empresa.
Os autores afirmam que, em junho de 2021, Benjamin Mann teria baixado ao menos 5 milhões de livros da LibGen. Em julho de 2022, funcionários da Anthropic teriam obtido outros 2 milhões de exemplares do Pirate Library Mirror. A ação atribui a Dario Amodei autorização e direção sobre parte dessas atividades. Essas afirmações fazem parte das acusações e ainda serão discutidas no processo.
O caso se apoia parcialmente em informações que vieram à tona em uma disputa anterior envolvendo autores de livros e a Anthropic.
Em 2025, o juiz federal William Alsup concluiu que a utilização de livros para treinamento de modelos poderia, em determinadas circunstâncias, ser considerada fair use. Entretanto, estabeleceu uma distinção importante entre treinar um sistema utilizando obras e obter cópias de origem pirata para formar uma biblioteca de treinamento.
Essa diferença pode ser determinante para o novo processo.
A defesa da indústria de IA tem se apoiado frequentemente no argumento de que o treinamento de modelos é transformativo. Os detentores dos direitos, por outro lado, procuram deslocar parte do debate para a origem dos dados, argumentando que mesmo uma utilização posterior considerada transformativa não autorizaria automaticamente a obtenção ilegal das cópias originais.
MusixMatch e LyricFind também aparecem na acusação
A ação não se limita aos torrents.
Sony e Warner alegam que a Anthropic também teria coletado letras diretamente da internet por meio de raspagem automatizada de sites que possuem autorização para exibir esse conteúdo.
Entre os serviços citados estão MusixMatch e LyricFind, plataformas que trabalham com licenciamento de letras musicais.
Segundo a acusação, a Anthropic teria extraído textos dessas páginas sem obter uma licença equivalente das editoras responsáveis pelas composições.
A queixa menciona ainda outros métodos de aquisição de dados, incluindo conjuntos conhecidos como Common Crawl, The Pile e Books3.
Também aparece no processo a chamada digitalização destrutiva de livros físicos. Nesse procedimento, exemplares são adquiridos, desmontados para facilitar a digitalização em alta velocidade e posteriormente descartados.
Sony e Warner sustentam que livros contendo letras e partituras também teriam entrado nos bancos de dados dessa maneira.
Esses diferentes mecanismos tornam o processo mais amplo do que uma simples discussão sobre respostas do Claude.
Os autores procuram questionar toda a cadeia de obtenção, preparação e utilização dos dados usados no desenvolvimento dos modelos.
Editoras dizem que Claude consegue reproduzir letras protegidas
A segunda frente da acusação envolve o comportamento dos próprios modelos.
As editoras afirmam que sistemas Claude podem gerar trechos idênticos ou quase idênticos a letras protegidas quando recebem determinadas solicitações.
Segundo o processo, isso demonstraria que as composições não apenas integraram os dados utilizados durante o treinamento, mas também teriam sido memorizadas em grau suficiente para reaparecer nas respostas do sistema.
A Anthropic implementa mecanismos destinados a restringir pedidos de reprodução extensa de conteúdo protegido por direitos autorais. A existência dessas proteções, entretanto, não resolve a discussão sobre os dados utilizados anteriormente para treinar o sistema.
As editoras afirmam ainda que os modelos podem utilizar o aprendizado obtido com músicas existentes para produzir grandes quantidades de novas letras artificiais, criando produtos que potencialmente competiriam com trabalhos humanos no mercado musical.
Essa tese é mais complexa juridicamente.
Um sistema capaz de aprender estruturas linguísticas e produzir um novo texto não necessariamente viola direitos autorais apenas porque foi treinado com textos anteriores. A discussão deverá envolver o nível de semelhança entre as obras, o método de aquisição dos dados e o caráter transformativo do treinamento.
Pedido pode gerar indenização de bilhões de dólares
O tamanho potencial da disputa chama atenção.
As editoras pedem indenizações estatutárias de até US$ 150 mil por cada obra considerada deliberadamente infringida. A legislação norte-americana permite esse teto em casos de violação intencional de copyright.
Como a ação afirma envolver dezenas de milhares de composições, o valor máximo teórico poderia alcançar vários bilhões de dólares.
Isso não significa que a Anthropic será condenada a pagar esse montante.
O valor final dependeria da quantidade de obras efetivamente reconhecidas pelo tribunal como infringidas, do grau de responsabilidade atribuído aos réus e da decisão sobre a natureza das violações.
Os autores também pedem até US$ 25 mil por cada violação relacionada à remoção ou alteração de informações de gerenciamento de direitos autorais.
Essas informações, conhecidas pela sigla CMI, podem incluir dados que identificam autores, titulares dos direitos e outras informações relacionadas à proteção da obra.
O processo acusa a Anthropic de remover ou modificar esses elementos durante a preparação dos dados de treinamento.
Sony e Warner querem acesso aos dados de treinamento
O pedido das editoras não se limita a dinheiro.
A ação solicita que o tribunal determine que a Anthropic forneça uma prestação de contas detalhada de seus dados e métodos de treinamento.
Isso incluiria a identificação das letras e demais obras utilizadas nos modelos, as formas pelas quais esses conteúdos foram coletados, processados e codificados, além de informações sobre terceiros eventualmente envolvidos na obtenção ou licenciamento dos dados.
Esse pedido possui grande relevância para a indústria de inteligência artificial.
Empresas que desenvolvem grandes modelos normalmente não divulgam listas completas de todo o conteúdo utilizado durante o treinamento. Parte dessas informações é tratada como segredo comercial e envolve conjuntos de dados enormes e complexos.
Uma ordem judicial obrigando a Anthropic a revelar detalhes poderia fornecer às editoras informações capazes de embasar novas reivindicações e também influenciar outros processos envolvendo IA.
Os autores pedem ainda que cópias consideradas infratoras sejam destruídas sob supervisão do tribunal e que a empresa apresente posteriormente uma declaração detalhando como cumpriu essa determinação.
Também é solicitada uma liminar permanente para impedir novas violações.
Dario Amodei e Benjamin Mann foram incluídos pessoalmente
Outro aspecto incomum é a inclusão individual dos dois cofundadores.
A ação não se limita a Anthropic como pessoa jurídica.
Dario Amodei e Benjamin Mann são apontados como réus por supostamente terem desempenhado papéis diretos nas decisões relacionadas à obtenção dos dados.
A queixa afirma que Mann teria utilizado BitTorrent pessoalmente e posteriormente instruído outros funcionários a fazer downloads. Também sustenta que Amodei teria aprovado e dirigido essas atividades.
Essas alegações ainda precisarão ser demonstradas.
A inclusão dos executivos aumenta, porém, a pressão do processo e mostra que os autores procuram atribuir responsabilidade não apenas à estratégia corporativa da Anthropic, mas às decisões tomadas por seus dirigentes durante a formação inicial dos bancos de dados.
Caso de autores criou precedente importante para a disputa
A Anthropic já enfrentou uma das maiores ações de direitos autorais relacionadas à inteligência artificial.
Em 2025, a empresa concordou em pagar US$ 1,5 bilhão para encerrar uma ação coletiva apresentada por autores que acusavam a companhia de utilizar livros obtidos de fontes piratas.
O caso produziu uma decisão particularmente importante para a indústria.
O juiz William Alsup entendeu que utilizar livros para treinar um modelo de linguagem poderia ser transformativo e, portanto, protegido pelo fair use.
Ao mesmo tempo, o magistrado considerou que baixar milhões de livros de bibliotecas piratas constituía uma questão separada. Segundo a Reuters, a empresa poderia ter enfrentado uma exposição financeira extremamente elevada por essas cópias.
Esse precedente cria uma situação jurídica incomum.
As empresas de IA conseguiram um argumento favorável para defender o treinamento propriamente dito, mas podem continuar vulneráveis quando não conseguem demonstrar uma origem legal para os dados utilizados.
É justamente essa brecha que Sony e Warner procuram explorar.
Universal já mantinha ações contra a Anthropic
A nova ofensiva também consolida uma pressão coordenada das maiores editoras musicais do mundo.
A Universal Music Publishing Group, junto com Concord e ABKCO, já havia iniciado uma ação contra a Anthropic em 2023.
Em janeiro de 2026, o grupo apresentou outro processo, afirmando que mais de 20 mil músicas poderiam estar envolvidas e estimando uma exposição superior a US$ 3 bilhões em indenizações estatutárias.
Com a entrada de Sony Music Publishing e Warner Chappell, as divisões editoriais ligadas aos três maiores grupos musicais globais agora mantêm litígios contra a Anthropic.
Isso aumenta o alcance comercial do conflito.
Essas companhias administram catálogos que abrangem décadas de produção musical e representam compositores de diferentes gerações e gêneros.
Disputa vai além das letras de músicas
Embora as canções famosas funcionem como elemento mais visível do processo, o debate possui implicações maiores.
Empresas de inteligência artificial precisam de quantidades enormes de texto, imagem, áudio, vídeo e código para desenvolver modelos mais capazes.
Detentores de direitos autorais argumentam que esse mercado não pode crescer utilizando gratuitamente conteúdos pelos quais outras empresas pagam licenças.
Do lado das companhias de tecnologia, existe a tese de que o treinamento não funciona como uma simples reprodução comercial da obra original. O modelo analisa grandes conjuntos de informações para aprender padrões e produzir novos resultados.
A pergunta jurídica não possui ainda uma resposta única.
Tribunais norte-americanos vêm examinando separadamente a legalidade da obtenção dos arquivos, o processo de treinamento, a reprodução posterior pelo modelo e o possível impacto sobre mercados existentes.
No caso Sony e Warner contra Anthropic, essas quatro questões aparecem simultaneamente.
Anthropic promete se defender e cita fair use
A companhia procura enquadrar a nova ação como uma repetição de argumentos já apresentados em processos anteriores.
Segundo porta voz citado pela Reuters, trata-se da terceira ação promovida pelos mesmos advogados com alegações que, na avaliação da empresa, já estão sendo examinadas por outros tribunais. A Anthropic afirmou que pretende se defender e voltou a citar decisões favoráveis ao entendimento de que o treinamento de IA pode constituir fair use.
Essa defesa, entretanto, precisará enfrentar a parte da acusação relacionada aos torrents.
Mesmo uma eventual vitória sobre o princípio geral de treinamento com obras protegidas não necessariamente resolve acusações relacionadas à aquisição de cópias piratas.
Essa separação deverá ser um dos pontos centrais da disputa.
Processo pode ajudar a definir o modelo econômico dos dados de IA
O resultado terá importância para muito além da Anthropic.
Se os tribunais concluírem que empresas precisam licenciar previamente grande parte dos materiais utilizados para treinar modelos, os custos de desenvolvimento de inteligência artificial poderão crescer significativamente.
Isso também poderia criar um novo mercado de licenciamento para editoras musicais, empresas de mídia, autores e outros titulares de conteúdo.
Se, por outro lado, o fair use for interpretado de maneira ampla para diferentes etapas do treinamento, empresas de IA poderão manter maior liberdade para utilizar materiais protegidos, desde que os dados tenham sido obtidos legalmente.
A discussão sobre procedência pode, portanto, tornar-se tão importante quanto a discussão sobre treinamento.
Nesse cenário, empresas poderão ser pressionadas a manter registros mais detalhados de onde cada conjunto de dados foi obtido, quais licenças existem e quais materiais precisam ser excluídos.
A ação protocolada por Sony e Warner surge exatamente nesse momento de transição.
O Claude está entre os modelos de inteligência artificial mais utilizados do mundo, enquanto a Anthropic se tornou uma das empresas mais valiosas do setor. Ao mesmo tempo, a companhia enfrenta uma quantidade crescente de disputas sobre os materiais utilizados para construir seus sistemas.
Ainda é cedo para saber qual será o resultado do novo processo. Não houve decisão sobre responsabilidade, e as acusações apresentadas pelas editoras permanecem alegações que deverão ser testadas judicialmente.
O que já está claro é que a disputa pela próxima geração de inteligência artificial passou também a ser uma disputa sobre quem possui o direito de fornecer o conhecimento usado para construí-la e quanto as empresas terão de pagar por esse acesso.
Para Sony, Warner e outros detentores de catálogos, a resposta passa pelo licenciamento.
Para a Anthropic, o desafio será demonstrar que suas práticas estão dentro dos limites do direito autoral norte-americano e separar juridicamente o treinamento de modelos das acusações de obtenção ilegal dos dados.
Essa diferença poderá definir não apenas o destino deste processo, mas parte das regras econômicas que orientarão a relação entre inteligência artificial e indústria criativa nos próximos anos.
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